“O irônico disso tudo é tudo isso”

 

 

Olhe bem no espelho e reflita sobre a sua autenticidade, sobre a sua existência como único e legítimo ser Fulano de Tal Oliveira Pinto. Ignorando, nesse exato momento, as peculiaridades do seu sobrenome, observe somente o nome próprio. Quantas vezes na escola, no trabalho ou em qualquer grupo de amigos você teve que se sujeitar ao um apelido ou um codinome? Por simples fato de não ser “confundido” em um diálogo por outra pessoa possuidora do seu, até então, exclusivo nome! Triste fato é a numeração: Tiago 1, Tiago 2... E assim vai!

 

Apesar disso, quando todos aqueles Tiago’s e você entram para suas casas, para os seus quartos, a particularidade parece novamente reinar. Você é você... O único em espécie e grau. Talvez até bonito como tenta afirmar sua família, inteligente como tenta mostrar para os seus amigos e irresistível, nú perante o espelho. Você sabe muito bem seu gosto, se descreve e questiona sobre sua existência e sua individualidade ao pensar na humanidade inteira. Quando não se revela um ser tão seguro, define bem seus defeito e as possíveis melhorias. Nessa analise pouco freudiana, que ocorre entre quatro paredes, quando se troca de roupa e observa o corpo ou simplesmente antes de dormir, a pessoa se revela única. Confusa ou resolvida, não vem ao caso, o interessante é a condição dela ser. Ele se olha, se analisa e vê em si um indivíduo.

 

Ao acordar de tal reflexão ou simplesmente do sono profundo que a trouxe a essa discussão do seu próprio eu, chega o momento de voltar à realidade. A realidade de ser mais um e não ser um. Na escola um aluno de tal turma. No trabalho o empregado de tal empresa com uma função definida na carteira de trabalho. No consultório do médico em uma consulta pelo S.U.S. uma anatomia ambulante. No vestibular uma estatística e como graduado um problema social. Toda aquela reflexão produzida no quarto quando se encontra isolado ou com um amigo divagando sobre suas desilusões e medos parece não fazer sentido quando se mistura a uma quantidade incalculável de pessoas na mesma situação.

 

Todavia, o mais irônico de tudo isso é pensar que existe uma individualidade tão concreta a ponto de vivenciá-la independentemente da existência da sociedade. Nessa sociedade pós-moderna, a crença em si mesmo, como indivíduo insubstituível, dá vazão a excentricidades inimagináveis. O poder de escolha (consumo, modo de vida e crença) é a ferramenta imprescindível para todo esse processo de auto-afirmação. Todavia, as pessoas se auto-afirmam através das suas escolhas, tentando fugir do comum, sem perceber que ao fazerem isso voltam a ser parte da massa, do todo da sociedade. E tudo isso continua sendo ainda mais irônico ao produzir a crença que o poder de escolha irá destacá-lo definitivamente dessa massa.     

Escrito por Suzane Ferreira às 22h40
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